Sobre sonhos que chegam em kombis brancas

As tardes eram tão tediosas. Só se ouvia o barulho do sol ardido e de alguns pássaros corajosos a cantar naquela quentura. Até que a kombi branca virasse na esquina. Era o padeiro. Ele vinha bem devagar, dando oportunidade para todas as avós e avôs da rua fazerem seu pedido. Pão francês fresquinho, era o que dizia o autofalante. Se era mesmo, eu não sei. Não tinha naquela época nem gosto nem atenção pra isso. Era só ouvir os ecos do motor que eu saia correndo pra atazanar minha vó. Quero um sonho, vó. Me compra um sonho? Minha vózinha, que não me lembro de já ter me dito não, me dava um punhado de moeda, tirado de sua bolsinha de contas que guardo até hoje, e me pedia que trouxesse também uns pãezinhos.

Ficava eu, então, com a cara metida entre as grades do portão, esperando a kombi chegar até a altura da casa número oito. Ela vinha devagar, como se tivesse uma tartaruga mijando nas rodas, era o que diria minha vó. E eu ia me inquietando de ansiedade e fome. O padeiro era um acontecimento na tarde da vila, que de tão estática, bem podia ser uma pintura.

Quando a kombi chegava lá pelo meio da rua, eu já abria o portão que emperrava um pouco, e me botava na calçada. A mão segurando as moedas molhadas de suor de criança. Ficava nervosa de pensar em me meter naquele monte de adulto pra fazer meu pedido. Nunca fui muito de me impor em multidões. Gostava mais era de sentar e olhar. É curioso como tantas coisas a gente traz lá de criança.

Quando a kombi chegava perto o bastante para ser a minha vez, eu saía correndo pra ser a primeira a chegar nas portas abertas. Pedia um sonho, se tivesse de doce leite eu preferia. Podia ser o de creme também. Ah, e me vê três pãezinhos.

Com o sonho no colo, sentava no sofá com a minha vó. Acho que a gente via TV.


Hoje coloquei a água do chá pra ferver e sentei na varanda com uma caneca quente entre os dedos. Acho que foi o cheiro de camomila que me fez voltar praquelas tardes brancas. Minha vó gostava de chá. Ia lembrando disso tudo enquanto olhava a rua.

Desejei que os padeiros voltassem a vender pão de porta em porta.

Que eles nos trouxessem sonhos em kombis brancas.

%d blogueiros gostam disto: