A ansiedade é da cor da privada

Azul feito a pílula que tomo todas as manhãs.
É essa a cor do céu que vejo pelos vidros sujos ao fim do corredor. Fico na ponta dos pés para conseguir enxergar, por sobre armários e colunas, o que me cabe do lado de fora. Tento imaginar o sol das três queimando minha nuca. O calor da lã enroscada no meu pescoço quase me engana, mas pelo canto dos olhos posso ver a folha que, pregada no armário com um ímã-calendário de um restaurante self-service, balança com o vento do ar condicionado desregulado. Volto a plantar meus pés no carpete cinza manchado de café e me embrulho no meu xale de fios soltos. Ele também é cinza. E da mesma cor é minha cadeira. Diferente só são a mesa e o armário, que são de um ocre doente.
E meu computador que é preto. Aberto sobre o tampo de mdf, ele emite luzes brilhantes incapazes de iluminar. Tão brilhantes que me enjoam e que agora me recuso a encarar.
Dou às costas para a placa com meu nome. Cinza.
Ando até o fim do corredor. Não em direção à janela pendurada longe, bem longe, mas para o outro lado. Sei que para aquelas bandas há também uma saída para o céu, mas essa não posso enxergar. Vejo só um mundaréu cinza e ocre, uma tempestade no deserto. É para lá que vou. Passo por três mesas vazias, as cadeiras encaixadas debaixo do tampo como se estacionadas, os armários cheios de frases que dizem I love Monday, Office Sweet Office. É só diante do vazio daquelas baias que me perguntou onde quero chegar.
Andar em linha reta, sobre uma estrada pavimentada ou uma corda bamba, é uma direção e não um destino.
Penso em ir ao banheiro – que é também ocre. Com paredes marrons. Penso em me sentar na tampa da privada e deixar que escorra naquela água de reuso esse tanto de ansiedade que sinto e que não quero sentir. Penso em dar descarga. Deixar que aquela emoção se livre de mim. Eu, que uso meu corpo como uma prisão para mantê-la por perto, uma presença dolorida e familiar.
Eu não me viro à esquerda, o que quer dizer que o vaso sanitário não é uma opção.
Vou em frente, suportando com os ombros a sombra da ansiedade. Talvez, como Sísifo, eu esteja condenada a carregar essa pedra para cima, sempre para cima, por quarenta e quatro horas semanais.

%d blogueiros gostam disto: