O peso do vento

Rosana era alguém de poucas manias.

Se agradava em acordar às seis e coar com calma o café no filtro de pano, deixando a água quente cair conforme ia girando a caneca com o pulso. Depois se sentava à mesa do apartamento de dois cômodos e meio. Meio porque um corredor não é uma cozinha, era o que dizia sua vó quando a vinha visitar.

Antes de se sentar na cadeira de plástico, Rosana gostava de arreganhar as cortinas de algodão que davam para as portas da varanda da sala, que, por sua vez, davam para um grande nada. Teve sorte. O aluguel ali era caro demais para um quarto-e-sala, mas o que se podia fazer? É o preço que se paga para poder olhar para o céu sem fios enquanto come o café da manhã. E, desde que pudesse, ela pagaria o que fosse preciso para isso.

Com a fumaça ainda saindo fresca do bule, Rosana se punha na mesa com um pão e uma caneca e ficava lá vendo o céu mudar de azul desnutrido para rosa e então laranja e então azul de novo, forte feito seu café. Apreciava especialmente quando a cor não era nenhum negócio nem outro, quase querendo ser um marrom indefinido. Olhava bem atenta que era para tentar gravar no fundo da testa essa não-cor. Não abria nunca a porta da varanda, porque não gostava do vento gelado que brotava do sereno.

Era assim todas as manhãs.

Fora isso, à noite Rosana gostava de se mocosar debaixo de um cobertor mesmo no calor de trinta e seis graus de dezembro, as janelas bem fechadas – o céu da cor de um poço sem fundo a deixava agoniada – lavava o rosto com sabonete de babosa duas vezes por dia e só se sentava na fileira do lado direito do ônibus que tomava pra ir trabalhar.

Era um ônibus fretado pela empresa. Ela achava aquilo um luxo, já que a vida toda tinha se enfiado em duas, três conduções diferentes para chegar onde quer que tivesse que ir. Agora não. Ela subia pelas escadas, falava bom dia para o motorista, se sentava no banco almofadado e inclinava o encosto para ficar olhando o céu poeirento da estrada que passava numa corrida. Às vezes ouvia música, às vezes assistia a algum seriado, não tinha medo de alguém se encostar nela. Rosana não podia pedir vida melhor.

Foi numa segunda-feira que Rosana, já cansada, subiu as escadas do fretado para ir para sua casa. Tinha ficado presa num relatório chato como um chute no dedão. Era uma planilha com dezesseis abas diferentes e quase teve que pegar o circular para ir embora. Foi a sorte dos necessitados que fez o chefe lembrar que estava atrasado para um happy hour. Ela ficou tão contente que se esqueceu de resmungar quando entrou no ônibus e deu com todas as cadeiras do lado direito ocupadas. Rosana estava tão precisada de um banho quente e um cobertor que se deixou cair no primeiro lugar vazio que encontrou perto da janela.

Ela estava assim distraída rolando a tela do celular em busca de um episódio bom de fazer esquecer o dia, quando sentiu uma rajada de vento brilhante querendo cegar seu olho esquerdo. Só aí se deu conta que a janela estava toda arreganhada. O céu laranja batia no seu rosto com o vento que entrava pelo buraco de linhas retas. Ela podia sentir o pôr-do-sol nas sardas que herdou da vó e percebeu que era gelado. Arregalou os olhos como uma boca que se abre, imensa, para comer de que tem fome. Rosana queria enfiar todas aquelas cores – o verde escuro do mato, o laranja que era quase amarelo e que deixava de ser o que era para, logo acima, entrar com passos cuidadosos o cinza, já perto de ser incolor, e que fazia as vezes de mediador entre o calor das cores quentes e o frio do roxo. Esse, por sua vez, já ia se virando num azul claro feito um véu. Rosana forçou as pálpebras a se abrirem mais um golinho, ainda que o toque das cores lhe secasse os olhos. Não importava. Ela estava encharcada daquilo que se punha sobre sua cabeça todos os dias e que, só por um desvio, ela calhou de ver.

O roxo foi descendo e puxando o azul consigo. O véu se espessou até que, no tempo de um sopro, virou cobertor. Rosana não tinha gosto pelo vento, lhe dava arrepio só de imaginar que algo que ela não podia ver a tocava. Ela também se agoniava com o escuro do céu – tinha medo de cair para cima, como se as estrelas fossem restos de água salgada no fundo daquele poço sobre o qual agora ela se curvava. Naquela segunda-feira, Rosana só fez estreitar os olhos para firmar a vista e dilatar as narinas para apreciar o cheiro da queda.


Rosana chegou em casa, largou a bolsa no balcão que dividia a cozinha da sala, deixou os sapatos pretos do lado do sofá, empurrou as cortinas de algodão até que se amontoassem num canto só, e abriu a porta da varanda, emperrada pela poeira dos dias. Ela se deitou no chão áspero e continuou a olhar o abismo até que estivesse em meio às poças. Dormiu lá, encolhida naquele pedaço pequeno de chão suspenso no céu, sem cobertor.

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