Meu lugar favorito é um poema que reverbera

Mais bonita do que a palavra orvalho,  é o nome de sua vó.

Quem disse isso foi Marcelino Freire em uma aula que caí por esses dias. Com os tímpanos maravilhados, o escutei falar sobre como,  aos dez anos,  descobriu a poesia com Manuel Bandeira e a arte do teatro com a escola. Descobri que grande poeta e atriz é minha mãe, ele conta. Ela proclamava todas as noites “ai, amanhã não amanheço viva”. Em estrofes, a criança que foi Marcelino anotava esses versos doídos que sua mãe declamava pelos dias. 

Foi nessa aula sobre escrita literária que aprendi que o corpo da minha avó era também poesia.

Minha vó é o meu lugar-seguro. Ainda que sua carne já não habite o mesmo plano astral que a minha, a visito sempre. Nem preciso fechar os olhos, fazer oração,  pegar fotografia.  É mastigar um chiclete de menta que já estou lá com ela: lembro de seus dedos macerando folha de hortelã pra fazer unguento e o chá doce que ela me servia pra dor de barriga. 

Lembro também do seu carinho feito como só ela fazia. As mãos feridas de diabete que me ofereciam amor, como uma reza bonita, cheia de fé. Como Marcelino, copio em versos os gestos daquela mão: os dedos indicador e médio juntos, arando o caminho do afeto entre meus cabelos grossos. Repito o movimento vez ou outra para não esquecer.

Do corpo de minha vó, a poesia também saía de sua barriga. No mercadinho do bairro se vendia um suquinho que era água com corante, desses bem pigmentados. O plástico maleável da embalagem vinha em formato de celular com antena, às vezes era um revólver. A barriga da minha avó era mole assim. Eu encostava meu ouvido na sua pele aveludada e ouvia seu intestino roncar versos feito um trovador. Trago esses sons dentro do meu próprio estômago e desconfio que é essa a rima que tento reproduzir, feito eco que não se cala.

Meu lugar favorito é a minha vó. É o colo para onde eu quero voltar.

É um poema que reverbera.

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