esse é o meu primeiro texto de bloco de notas

faz anos que trabalho na terapia essa minha ânsia de ser incrível. isso: incrível. perfeita eu já sei que não sou, ninguém é, etc blablabla. mas incrível? isso é possível. e eu quero. cresci querendo: tirar dez e não oito, escrever um bestseller com onze anos, fazer um moicano e ser a christiane f. do interior de são paulo – porque gostar de estudar, escrever poemas pra família e ser rebelde sem causa não bastava. eu precisava ser INCRÍVEL INCRÍVEL INCRÍVEL em tudo isso. ainda preciso. mas o convênio da firma cobre tratamento psicológico e nisso também eu quero ser incrível: paciente exemplar.
portanto: esse blog acaba de inaugurar a incrível era de textos-não-incríveis.
aí vai:


Talvez Ela esteja começando a gostar de mim.
Essa noite tive sonhos horríveis, é o que eu quero dizer. O que talvez eu deva dizer é que essa noite tive sonhos sujos, como são sujas as gosmas que saem dos nossos corpos. Excrementos, fluídos. Gás carbônico. Bíle. É tanta sujeira por debaixo da pele e da carne e que não sei como sobra espaço pra poesia.
Acho que não sobra, e por isso escrevemos.
Não importa, é o que eu quero dizer.
Não digo.
(e não me importo com a quebra de ritmo do texto.)
Tenho pensado em algumas histórias. Lavoura Arcaica, O Memorial de Maria Moura, Viajantes do Abismo, O Auto da Maga Josefa.
Sonhei também com Marcelino Freire em uma amizade improvável com uma influencer. Ainda me assombra como pessoas ganham dinheiro porque têm muitos seguidores em redes sociais. Eu aprendi que a gente precisa labutar muito, tomar no cu bonito, pra daí ter sucesso – sendo sucesso a mesma coisa que ter a carteira cheia de notas de cem reais. Lembro de quando me dei conta que tinha gente pagando conta de luz e de mercado com essa história de instagram. Não podia acreditar que faziam grana com isso que eu fazia de graça todo dia: me expor na Internet. E como assim tinha jovem alcançando o status de famosx sem nem participar de uma novela da record ou sair na capa da revista quem?
(é isso: a primeira vez que fui cringe eu tinha vinte e um anos, mas sigo me cuidando pra não ser o tipo boomer-julgador que me fez acabar na terapia, um comprimido de manhã e outro à tarde.)
Eu sei que a sociedade se transforma.
Ontem o céu estava besta de tão azul, hoje véus de nuvem passeiam de um canto ao outro. Mesmo sem abaixar os olhos, dá pra dizer quando uma cirrus nasce.

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