sobre a raiva

Foto por Lucas Pezeta em Pexels.com

Aprendi nas aulas de yoga:
aterra os pés no chão, abre
bem os dedos. Queixo paralelo
ao chão. Fecha os olhos. Respira
Como você se sente?

Quando os pernilongos entram pelo meu ouvido e se chocam nos ossos do meu crânio, eu penso:
Como você se sente?
(fecho os olhos)
(percebo que não são pernilongos, são abelhas. Sei disso porque meus pensamentos tremem)


Eu me sinto uma placa tectônica estilhaçada.

No man is an island.

Mas uma mulher é feita de infinitas porções de terra cercadas por água salgada e sangue. Territórios invadidos, colonizados.
Lembro das guerrilheiras de Monique Wittig. Uma mulher precisa lutar para se pertencer.

Como você se sente?
Me sinto uma mulher que há dois anos toma uma pílula pela manhã e outra pela noite.

Conversas de quinta-feira

Dedo sobre tela de smartphone, 2020

voar de balão na capadócia
champanhe gelado
um brinde ao sol que nasce
braços arrepiados
que me seguram a cintura
as mãos minhas
que se agarram à borda fina
da caixa que é a beira
do mundo
o céu que acaba
em borracha colorida
e rochas fantásticas
pisco
pisco
pisco
não é um sonho
e porque quero acordar
olho para baixo
e penso em me jogar
nos vulcões da turquia

O peso do vento

Rosana era alguém de poucas manias.

Se agradava em acordar às seis e coar com calma o café no filtro de pano, deixando a água quente cair conforme ia girando a caneca com o pulso. Depois se sentava à mesa do apartamento de dois cômodos e meio. Meio porque um corredor não é uma cozinha, era o que dizia sua vó quando a vinha visitar.

Antes de se sentar na cadeira de plástico, Rosana gostava de arreganhar as cortinas de algodão que davam para as portas da varanda da sala, que, por sua vez, davam para um grande nada. Teve sorte. O aluguel ali era caro demais para um quarto-e-sala, mas o que se podia fazer? É o preço que se paga para poder olhar para o céu sem fios enquanto come o café da manhã. E, desde que pudesse, ela pagaria o que fosse preciso para isso.

Com a fumaça ainda saindo fresca do bule, Rosana se punha na mesa com um pão e uma caneca e ficava lá vendo o céu mudar de azul desnutrido para rosa e então laranja e então azul de novo, forte feito seu café. Apreciava especialmente quando a cor não era nenhum negócio nem outro, quase querendo ser um marrom indefinido. Olhava bem atenta que era para tentar gravar no fundo da testa essa não-cor. Não abria nunca a porta da varanda, porque não gostava do vento gelado que brotava do sereno.

Era assim todas as manhãs.

Fora isso, à noite Rosana gostava de se mocosar debaixo de um cobertor mesmo no calor de trinta e seis graus de dezembro, as janelas bem fechadas – o céu da cor de um poço sem fundo a deixava agoniada – lavava o rosto com sabonete de babosa duas vezes por dia e só se sentava na fileira do lado direito do ônibus que tomava pra ir trabalhar.

Era um ônibus fretado pela empresa. Ela achava aquilo um luxo, já que a vida toda tinha se enfiado em duas, três conduções diferentes para chegar onde quer que tivesse que ir. Agora não. Ela subia pelas escadas, falava bom dia para o motorista, se sentava no banco almofadado e inclinava o encosto para ficar olhando o céu poeirento da estrada que passava numa corrida. Às vezes ouvia música, às vezes assistia a algum seriado, não tinha medo de alguém se encostar nela. Rosana não podia pedir vida melhor.

Foi numa segunda-feira que Rosana, já cansada, subiu as escadas do fretado para ir para sua casa. Tinha ficado presa num relatório chato como um chute no dedão. Era uma planilha com dezesseis abas diferentes e quase teve que pegar o circular para ir embora. Foi a sorte dos necessitados que fez o chefe lembrar que estava atrasado para um happy hour. Ela ficou tão contente que se esqueceu de resmungar quando entrou no ônibus e deu com todas as cadeiras do lado direito ocupadas. Rosana estava tão precisada de um banho quente e um cobertor que se deixou cair no primeiro lugar vazio que encontrou perto da janela.

Ela estava assim distraída rolando a tela do celular em busca de um episódio bom de fazer esquecer o dia, quando sentiu uma rajada de vento brilhante querendo cegar seu olho esquerdo. Só aí se deu conta que a janela estava toda arreganhada. O céu laranja batia no seu rosto com o vento que entrava pelo buraco de linhas retas. Ela podia sentir o pôr-do-sol nas sardas que herdou da vó e percebeu que era gelado. Arregalou os olhos como uma boca que se abre, imensa, para comer de que tem fome. Rosana queria enfiar todas aquelas cores – o verde escuro do mato, o laranja que era quase amarelo e que deixava de ser o que era para, logo acima, entrar com passos cuidadosos o cinza, já perto de ser incolor, e que fazia as vezes de mediador entre o calor das cores quentes e o frio do roxo. Esse, por sua vez, já ia se virando num azul claro feito um véu. Rosana forçou as pálpebras a se abrirem mais um golinho, ainda que o toque das cores lhe secasse os olhos. Não importava. Ela estava encharcada daquilo que se punha sobre sua cabeça todos os dias e que, só por um desvio, ela calhou de ver.

O roxo foi descendo e puxando o azul consigo. O véu se espessou até que, no tempo de um sopro, virou cobertor. Rosana não tinha gosto pelo vento, lhe dava arrepio só de imaginar que algo que ela não podia ver a tocava. Ela também se agoniava com o escuro do céu – tinha medo de cair para cima, como se as estrelas fossem restos de água salgada no fundo daquele poço sobre o qual agora ela se curvava. Naquela segunda-feira, Rosana só fez estreitar os olhos para firmar a vista e dilatar as narinas para apreciar o cheiro da queda.


Rosana chegou em casa, largou a bolsa no balcão que dividia a cozinha da sala, deixou os sapatos pretos do lado do sofá, empurrou as cortinas de algodão até que se amontoassem num canto só, e abriu a porta da varanda, emperrada pela poeira dos dias. Ela se deitou no chão áspero e continuou a olhar o abismo até que estivesse em meio às poças. Dormiu lá, encolhida naquele pedaço pequeno de chão suspenso no céu, sem cobertor.

A ansiedade é da cor da privada

Azul feito a pílula que tomo todas as manhãs.
É essa a cor do céu que vejo pelos vidros sujos ao fim do corredor. Fico na ponta dos pés para conseguir enxergar, por sobre armários e colunas, o que me cabe do lado de fora. Tento imaginar o sol das três queimando minha nuca. O calor da lã enroscada no meu pescoço quase me engana, mas pelo canto dos olhos posso ver a folha que, pregada no armário com um ímã-calendário de um restaurante self-service, balança com o vento do ar condicionado desregulado. Volto a plantar meus pés no carpete cinza manchado de café e me embrulho no meu xale de fios soltos. Ele também é cinza. E da mesma cor é minha cadeira. Diferente só são a mesa e o armário, que são de um ocre doente.
E meu computador que é preto. Aberto sobre o tampo de mdf, ele emite luzes brilhantes incapazes de iluminar. Tão brilhantes que me enjoam e que agora me recuso a encarar.
Dou às costas para a placa com meu nome. Cinza.
Ando até o fim do corredor. Não em direção à janela pendurada longe, bem longe, mas para o outro lado. Sei que para aquelas bandas há também uma saída para o céu, mas essa não posso enxergar. Vejo só um mundaréu cinza e ocre, uma tempestade no deserto. É para lá que vou. Passo por três mesas vazias, as cadeiras encaixadas debaixo do tampo como se estacionadas, os armários cheios de frases que dizem I love Monday, Office Sweet Office. É só diante do vazio daquelas baias que me perguntou onde quero chegar.
Andar em linha reta, sobre uma estrada pavimentada ou uma corda bamba, é uma direção e não um destino.
Penso em ir ao banheiro – que é também ocre. Com paredes marrons. Penso em me sentar na tampa da privada e deixar que escorra naquela água de reuso esse tanto de ansiedade que sinto e que não quero sentir. Penso em dar descarga. Deixar que aquela emoção se livre de mim. Eu, que uso meu corpo como uma prisão para mantê-la por perto, uma presença dolorida e familiar.
Eu não me viro à esquerda, o que quer dizer que o vaso sanitário não é uma opção.
Vou em frente, suportando com os ombros a sombra da ansiedade. Talvez, como Sísifo, eu esteja condenada a carregar essa pedra para cima, sempre para cima, por quarenta e quatro horas semanais.

Gancho de esquerda

Foto por Magdaline Nicole em Pexels.com

Teu coração adoidado
quer bater fora do peito,
correr desenfreado,
comer três futuros
Incansável
Com um suspiro
frágil
frágil
frágil
Tu pega esse desembestado pelas mãos
e diz
– Te aquieta, seu escroto
Tu sabe que por hora,
e só por hora,
ele te acata
Tu sabe que amanhã,
talvez ainda hoje,
esse aloprado te escapa,
te faz refém,
te mata.

Sobre sonhos que chegam em kombis brancas

As tardes eram tão tediosas. Só se ouvia o barulho do sol ardido e de alguns pássaros corajosos a cantar naquela quentura. Até que a kombi branca virasse na esquina. Era o padeiro. Ele vinha bem devagar, dando oportunidade para todas as avós e avôs da rua fazerem seu pedido. Pão francês fresquinho, era o que dizia o autofalante. Se era mesmo, eu não sei. Não tinha naquela época nem gosto nem atenção pra isso. Era só ouvir os ecos do motor que eu saia correndo pra atazanar minha vó. Quero um sonho, vó. Me compra um sonho? Minha vózinha, que não me lembro de já ter me dito não, me dava um punhado de moeda, tirado de sua bolsinha de contas que guardo até hoje, e me pedia que trouxesse também uns pãezinhos.

Ficava eu, então, com a cara metida entre as grades do portão, esperando a kombi chegar até a altura da casa número oito. Ela vinha devagar, como se tivesse uma tartaruga mijando nas rodas, era o que diria minha vó. E eu ia me inquietando de ansiedade e fome. O padeiro era um acontecimento na tarde da vila, que de tão estática, bem podia ser uma pintura.

Quando a kombi chegava lá pelo meio da rua, eu já abria o portão que emperrava um pouco, e me botava na calçada. A mão segurando as moedas molhadas de suor de criança. Ficava nervosa de pensar em me meter naquele monte de adulto pra fazer meu pedido. Nunca fui muito de me impor em multidões. Gostava mais era de sentar e olhar. É curioso como tantas coisas a gente traz lá de criança.

Quando a kombi chegava perto o bastante para ser a minha vez, eu saía correndo pra ser a primeira a chegar nas portas abertas. Pedia um sonho, se tivesse de doce leite eu preferia. Podia ser o de creme também. Ah, e me vê três pãezinhos.

Com o sonho no colo, sentava no sofá com a minha vó. Acho que a gente via TV.


Hoje coloquei a água do chá pra ferver e sentei na varanda com uma caneca quente entre os dedos. Acho que foi o cheiro de camomila que me fez voltar praquelas tardes brancas. Minha vó gostava de chá. Ia lembrando disso tudo enquanto olhava a rua.

Desejei que os padeiros voltassem a vender pão de porta em porta.

Que eles nos trouxessem sonhos em kombis brancas.