meu blog

  • i don’t know how i’m meant to feel anymore
    Foto por Lisa em Pexels.com

    coloco uma playlist de sugestões do spotify. não sei se o algoritmo do aplicativo não é muito afiado ou se eu sou mais incoerente do que imagino ser. até agora, nada do que ele me ofereceu eu mesma buscaria para ouvir. músicas e mais músicas que me lembram todas wherever you will go da banda the calling.
    lembro quando meu padrinho me gravou um cd do the calling e eu quase derreti o pedaço de plástico de tanto ouvir as mesmas notas grudentas. eu cresci sem TV paga e não me saía muito bem na interação com outras crianças, então me sobravam os livros que achava pela casa, o rádio e os cds, a maioria do meu pai.
    ganhava cds de natal e de aniversário, piratas ou originais. aproveitava cada faixa com medo de que as músicas sumissem sem que as tivesse decorado. gravava também minhas canções favoritas em fitas quando tocavam no rádio. uma atividade que eu fazia com concentração aguda para não atravessar uma faixa com outra ou pior: pegar o locutor falando alguma besteira. gostava ainda de escrever as letras nos meus caderninhos – copiadas de encartes ou ditadas por meu radinho azul portátil. pause-escreve-pause-escreve. então deitava na cama e deixava que cada nota me entrasse pelos ossos e tremesse lá dentro de mim até que eu Sentisse. às vezes Chorava.
    depois veio o ensino médio em outra cidade, o mp3, a comunidade discografias no orkut. trinta minutos no ônibus e as ruas que passavam eram cenas do que eu sentia e eu as encaixava na sede e na seca que eu criava dentro do ouvido. eu me apaixonava porque nando reis me dizia eu cuidarei do seu jantar do céu e do mar, e de você e de mim. me desolava quando arnaldo antunes cantava socorro, não estou sentindo nada, nem medo, nem calor, nem fogo, nem vontade de chorar, nem de rir. e me avistava com renato russo me confessando acho que gosto de são paulo gosto de são joão, gosto de são francisco e são sebastião.
    mais tarde as redes sociais passaram a pegar pesado nessa coisa de nos prender a elas. e eu já não Escutava Música. botava o álbum pra tocar enquanto pensava em outra coisa qualquer. atividade menor e secundária.
    foi com chromatica de lady gaga que voltei a sentar a bunda na cadeira com a intenção única e essencial de Escutar. e acompanhar as letras de cada faixa. escrever algumas passagens no meu caderninho.
    de volta à minha playlist sem coerência, ouço lana del rey cantar que hope is dangerous thing for a woman like me to have. quero Sentir. e depois Escrever. é assim que tenho feito nas últimas semanas. pensei que escreveria uma história meio cachorrada. sei lá, tava a fim. Pensei. Imaginei. Programei. Sentei para Escrever. e nada. comecei a sentir e sentir é uma coceira agoniante e infinita. taquei a unha e aí saiu um conto e depois outro e mais outro. e agora lily allen me canta i don’t know how i’m meant to feel anymore. e faz quarenta minutos que ouço uma canção depois da outra e o meu Sentir e o meu Conto estão entupidos num cano sujo.
    (e por isso escrevi isso tudo aí)

  • querer-querer

    foto de dois mil e doze e as mesmas questões

    eu sou viciada na ânsia de querer e conseguir. e não quero me livrar disso. sei que devia.
    sentada no meu sofá em uma sala nova, uma sala que eu quis tanto, quis muito, eu penso qual a próxima coisa que eu vou querer.
    já quis muito escrever – escrevi, publiquei. no serviço, eu chegava a sentir coceira porque lá se iam três anos olhando para as mesmas planilhas e respondendo aos mesmos clientes. são outras as planilhas agora, são outros os clientes.
    eu quis: mudar de casa, escrever um livro, atualizar meu linkedin. eu consegui, eu consegui, eu consegui.
    e respirei a satisfação por menos de um minuto antes de me estalar na cabeça: e agora o que?
    entre meus neurônios, o espaço destinado para memórias televisivas e cultura pop é reduzido, coisa de menos de um giga. então é grande dizer que me lembro de dois homens chegando ao topo do everest pra dar três pulos de alegria. eu sou aqueles homens. eu sou o monte everest.
    eu sou os mil e vinte quatro kbytes de memória.

    a ânsia do próximo me consome


    o barato de conseguir acaba e eu já não lembro porque escalei oito mil metros. os olhos ainda esbugalhados com a falta de ar e eu já quero mais, eu quero de novo, eu quero querer. apesar do tédio do pico.
    minha terapeuta, a quem vou chamar de senhora d. (sim, eu sou boiolinha por hh, como descobriu?), me disse que não faz bem ser assim. ela falou o mesmo sobre o meu uso indiscriminado do estado de mania para produzir. a conta chega, ela disse, às vezes na forma de um avc. naquela época, eu gastava toda a minha energia em um tiro só, feito celular com a bateria viciada (aí a palavra com v de novo). e me desligava sem mais nem menos também. ela estava certa, é claro. e foi muito estranho ouvir o silêncio dentro da minha cabeça quando o remédinho novo desligou a tremedeira do meu sangue.
    suponho que ela esteja certa sobre o querer-querer também.
    nos últimos dias, tenho sentido um pouco da mesma tremeção de pólvora nas veias. tenho tempo, tenho comida, tenho uma cama com bons travesseiros. mas não consigo deitar e me enfiar numa história dessas que eu gosto – fantasia, espada, triângulo amoroso. a ânsia do próximo me consome.
    eagoraeagoraeagora.
    eu me pergunto enquanto monto minha nova escrivaninha na minha nova casa para trabalhar no meu novo emprego.
    e agora.
    ???????

  • esse é o meu primeiro texto de bloco de notas

    faz anos que trabalho na terapia essa minha ânsia de ser incrível. isso: incrível. perfeita eu já sei que não sou, ninguém é, etc blablabla. mas incrível? isso é possível. e eu quero. cresci querendo: tirar dez e não oito, escrever um bestseller com onze anos, fazer um moicano e ser a christiane f. do interior de são paulo – porque gostar de estudar, escrever poemas pra família e ser rebelde sem causa não bastava. eu precisava ser INCRÍVEL INCRÍVEL INCRÍVEL em tudo isso. ainda preciso. mas o convênio da firma cobre tratamento psicológico e nisso também eu quero ser incrível: paciente exemplar.
    portanto: esse blog acaba de inaugurar a incrível era de textos-não-incríveis.
    aí vai:


    Talvez Ela esteja começando a gostar de mim.
    Essa noite tive sonhos horríveis, é o que eu quero dizer. O que talvez eu deva dizer é que essa noite tive sonhos sujos, como são sujas as gosmas que saem dos nossos corpos. Excrementos, fluídos. Gás carbônico. Bíle. É tanta sujeira por debaixo da pele e da carne e que não sei como sobra espaço pra poesia.
    Acho que não sobra, e por isso escrevemos.
    Não importa, é o que eu quero dizer.
    Não digo.
    (e não me importo com a quebra de ritmo do texto.)
    Tenho pensado em algumas histórias. Lavoura Arcaica, O Memorial de Maria Moura, Viajantes do Abismo, O Auto da Maga Josefa.
    Sonhei também com Marcelino Freire em uma amizade improvável com uma influencer. Ainda me assombra como pessoas ganham dinheiro porque têm muitos seguidores em redes sociais. Eu aprendi que a gente precisa labutar muito, tomar no cu bonito, pra daí ter sucesso – sendo sucesso a mesma coisa que ter a carteira cheia de notas de cem reais. Lembro de quando me dei conta que tinha gente pagando conta de luz e de mercado com essa história de instagram. Não podia acreditar que faziam grana com isso que eu fazia de graça todo dia: me expor na Internet. E como assim tinha jovem alcançando o status de famosx sem nem participar de uma novela da record ou sair na capa da revista quem?
    (é isso: a primeira vez que fui cringe eu tinha vinte e um anos, mas sigo me cuidando pra não ser o tipo boomer-julgador que me fez acabar na terapia, um comprimido de manhã e outro à tarde.)
    Eu sei que a sociedade se transforma.
    Ontem o céu estava besta de tão azul, hoje véus de nuvem passeiam de um canto ao outro. Mesmo sem abaixar os olhos, dá pra dizer quando uma cirrus nasce.

  • Meu lugar favorito é um poema que reverbera

    Mais bonita do que a palavra orvalho,  é o nome de sua vó.

    Quem disse isso foi Marcelino Freire em uma aula que caí por esses dias. Com os tímpanos maravilhados, o escutei falar sobre como,  aos dez anos,  descobriu a poesia com Manuel Bandeira e a arte do teatro com a escola. Descobri que grande poeta e atriz é minha mãe, ele conta. Ela proclamava todas as noites “ai, amanhã não amanheço viva”. Em estrofes, a criança que foi Marcelino anotava esses versos doídos que sua mãe declamava pelos dias. 

    Foi nessa aula sobre escrita literária que aprendi que o corpo da minha avó era também poesia.

    Minha vó é o meu lugar-seguro. Ainda que sua carne já não habite o mesmo plano astral que a minha, a visito sempre. Nem preciso fechar os olhos, fazer oração,  pegar fotografia.  É mastigar um chiclete de menta que já estou lá com ela: lembro de seus dedos macerando folha de hortelã pra fazer unguento e o chá doce que ela me servia pra dor de barriga. 

    Lembro também do seu carinho feito como só ela fazia. As mãos feridas de diabete que me ofereciam amor, como uma reza bonita, cheia de fé. Como Marcelino, copio em versos os gestos daquela mão: os dedos indicador e médio juntos, arando o caminho do afeto entre meus cabelos grossos. Repito o movimento vez ou outra para não esquecer.

    Do corpo de minha vó, a poesia também saía de sua barriga. No mercadinho do bairro se vendia um suquinho que era água com corante, desses bem pigmentados. O plástico maleável da embalagem vinha em formato de celular com antena, às vezes era um revólver. A barriga da minha avó era mole assim. Eu encostava meu ouvido na sua pele aveludada e ouvia seu intestino roncar versos feito um trovador. Trago esses sons dentro do meu próprio estômago e desconfio que é essa a rima que tento reproduzir, feito eco que não se cala.

    Meu lugar favorito é a minha vó. É o colo para onde eu quero voltar.

    É um poema que reverbera.

  • sobre a raiva
    Foto por Lucas Pezeta em Pexels.com

    Aprendi nas aulas de yoga:
    aterra os pés no chão, abre
    bem os dedos. Queixo paralelo
    ao chão. Fecha os olhos. Respira
    Como você se sente?

    Quando os pernilongos entram pelo meu ouvido e se chocam nos ossos do meu crânio, eu penso:
    Como você se sente?
    (fecho os olhos)
    (percebo que não são pernilongos, são abelhas. Sei disso porque meus pensamentos tremem)


    Eu me sinto uma placa tectônica estilhaçada.

    No man is an island.

    Mas uma mulher é feita de infinitas porções de terra cercadas por água salgada e sangue. Territórios invadidos, colonizados.
    Lembro das guerrilheiras de Monique Wittig. Uma mulher precisa lutar para se pertencer.

    Como você se sente?
    Me sinto uma mulher que há dois anos toma uma pílula pela manhã e outra pela noite.

  • Conversas de quinta-feira
    Dedo sobre tela de smartphone, 2020

    voar de balão na capadócia
    champanhe gelado
    um brinde ao sol que nasce
    braços arrepiados
    que me seguram a cintura
    as mãos minhas
    que se agarram à borda fina
    da caixa que é a beira
    do mundo
    o céu que acaba
    em borracha colorida
    e rochas fantásticas
    pisco
    pisco
    pisco
    não é um sonho
    e porque quero acordar
    olho para baixo
    e penso em me jogar
    nos vulcões da turquia

  • O peso do vento

    Rosana era alguém de poucas manias.

    Se agradava em acordar às seis e coar com calma o café no filtro de pano, deixando a água quente cair conforme ia girando a caneca com o pulso. Depois se sentava à mesa do apartamento de dois cômodos e meio. Meio porque um corredor não é uma cozinha, era o que dizia sua vó quando a vinha visitar.

    Antes de se sentar na cadeira de plástico, Rosana gostava de arreganhar as cortinas de algodão que davam para as portas da varanda da sala, que, por sua vez, davam para um grande nada. Teve sorte. O aluguel ali era caro demais para um quarto-e-sala, mas o que se podia fazer? É o preço que se paga para poder olhar para o céu sem fios enquanto come o café da manhã. E, desde que pudesse, ela pagaria o que fosse preciso para isso.

    Com a fumaça ainda saindo fresca do bule, Rosana se punha na mesa com um pão e uma caneca e ficava lá vendo o céu mudar de azul desnutrido para rosa e então laranja e então azul de novo, forte feito seu café. Apreciava especialmente quando a cor não era nenhum negócio nem outro, quase querendo ser um marrom indefinido. Olhava bem atenta que era para tentar gravar no fundo da testa essa não-cor. Não abria nunca a porta da varanda, porque não gostava do vento gelado que brotava do sereno.

    Era assim todas as manhãs.

    Fora isso, à noite Rosana gostava de se mocosar debaixo de um cobertor mesmo no calor de trinta e seis graus de dezembro, as janelas bem fechadas – o céu da cor de um poço sem fundo a deixava agoniada – lavava o rosto com sabonete de babosa duas vezes por dia e só se sentava na fileira do lado direito do ônibus que tomava pra ir trabalhar.

    Era um ônibus fretado pela empresa. Ela achava aquilo um luxo, já que a vida toda tinha se enfiado em duas, três conduções diferentes para chegar onde quer que tivesse que ir. Agora não. Ela subia pelas escadas, falava bom dia para o motorista, se sentava no banco almofadado e inclinava o encosto para ficar olhando o céu poeirento da estrada que passava numa corrida. Às vezes ouvia música, às vezes assistia a algum seriado, não tinha medo de alguém se encostar nela. Rosana não podia pedir vida melhor.

    Foi numa segunda-feira que Rosana, já cansada, subiu as escadas do fretado para ir para sua casa. Tinha ficado presa num relatório chato como um chute no dedão. Era uma planilha com dezesseis abas diferentes e quase teve que pegar o circular para ir embora. Foi a sorte dos necessitados que fez o chefe lembrar que estava atrasado para um happy hour. Ela ficou tão contente que se esqueceu de resmungar quando entrou no ônibus e deu com todas as cadeiras do lado direito ocupadas. Rosana estava tão precisada de um banho quente e um cobertor que se deixou cair no primeiro lugar vazio que encontrou perto da janela.

    Ela estava assim distraída rolando a tela do celular em busca de um episódio bom de fazer esquecer o dia, quando sentiu uma rajada de vento brilhante querendo cegar seu olho esquerdo. Só aí se deu conta que a janela estava toda arreganhada. O céu laranja batia no seu rosto com o vento que entrava pelo buraco de linhas retas. Ela podia sentir o pôr-do-sol nas sardas que herdou da vó e percebeu que era gelado. Arregalou os olhos como uma boca que se abre, imensa, para comer de que tem fome. Rosana queria enfiar todas aquelas cores – o verde escuro do mato, o laranja que era quase amarelo e que deixava de ser o que era para, logo acima, entrar com passos cuidadosos o cinza, já perto de ser incolor, e que fazia as vezes de mediador entre o calor das cores quentes e o frio do roxo. Esse, por sua vez, já ia se virando num azul claro feito um véu. Rosana forçou as pálpebras a se abrirem mais um golinho, ainda que o toque das cores lhe secasse os olhos. Não importava. Ela estava encharcada daquilo que se punha sobre sua cabeça todos os dias e que, só por um desvio, ela calhou de ver.

    O roxo foi descendo e puxando o azul consigo. O véu se espessou até que, no tempo de um sopro, virou cobertor. Rosana não tinha gosto pelo vento, lhe dava arrepio só de imaginar que algo que ela não podia ver a tocava. Ela também se agoniava com o escuro do céu – tinha medo de cair para cima, como se as estrelas fossem restos de água salgada no fundo daquele poço sobre o qual agora ela se curvava. Naquela segunda-feira, Rosana só fez estreitar os olhos para firmar a vista e dilatar as narinas para apreciar o cheiro da queda.


    Rosana chegou em casa, largou a bolsa no balcão que dividia a cozinha da sala, deixou os sapatos pretos do lado do sofá, empurrou as cortinas de algodão até que se amontoassem num canto só, e abriu a porta da varanda, emperrada pela poeira dos dias. Ela se deitou no chão áspero e continuou a olhar o abismo até que estivesse em meio às poças. Dormiu lá, encolhida naquele pedaço pequeno de chão suspenso no céu, sem cobertor.

  • A ansiedade é da cor da privada

    Azul feito a pílula que tomo todas as manhãs.
    É essa a cor do céu que vejo pelos vidros sujos ao fim do corredor. Fico na ponta dos pés para conseguir enxergar, por sobre armários e colunas, o que me cabe do lado de fora. Tento imaginar o sol das três queimando minha nuca. O calor da lã enroscada no meu pescoço quase me engana, mas pelo canto dos olhos posso ver a folha que, pregada no armário com um ímã-calendário de um restaurante self-service, balança com o vento do ar condicionado desregulado. Volto a plantar meus pés no carpete cinza manchado de café e me embrulho no meu xale de fios soltos. Ele também é cinza. E da mesma cor é minha cadeira. Diferente só são a mesa e o armário, que são de um ocre doente.
    E meu computador que é preto. Aberto sobre o tampo de mdf, ele emite luzes brilhantes incapazes de iluminar. Tão brilhantes que me enjoam e que agora me recuso a encarar.
    Dou às costas para a placa com meu nome. Cinza.
    Ando até o fim do corredor. Não em direção à janela pendurada longe, bem longe, mas para o outro lado. Sei que para aquelas bandas há também uma saída para o céu, mas essa não posso enxergar. Vejo só um mundaréu cinza e ocre, uma tempestade no deserto. É para lá que vou. Passo por três mesas vazias, as cadeiras encaixadas debaixo do tampo como se estacionadas, os armários cheios de frases que dizem I love Monday, Office Sweet Office. É só diante do vazio daquelas baias que me perguntou onde quero chegar.
    Andar em linha reta, sobre uma estrada pavimentada ou uma corda bamba, é uma direção e não um destino.
    Penso em ir ao banheiro – que é também ocre. Com paredes marrons. Penso em me sentar na tampa da privada e deixar que escorra naquela água de reuso esse tanto de ansiedade que sinto e que não quero sentir. Penso em dar descarga. Deixar que aquela emoção se livre de mim. Eu, que uso meu corpo como uma prisão para mantê-la por perto, uma presença dolorida e familiar.
    Eu não me viro à esquerda, o que quer dizer que o vaso sanitário não é uma opção.
    Vou em frente, suportando com os ombros a sombra da ansiedade. Talvez, como Sísifo, eu esteja condenada a carregar essa pedra para cima, sempre para cima, por quarenta e quatro horas semanais.

  • Gancho de esquerda
    Foto por Magdaline Nicole em Pexels.com

    Teu coração adoidado
    quer bater fora do peito,
    correr desenfreado,
    comer três futuros
    Incansável
    Com um suspiro
    frágil
    frágil
    frágil
    Tu pega esse desembestado pelas mãos
    e diz
    – Te aquieta, seu escroto
    Tu sabe que por hora,
    e só por hora,
    ele te acata
    Tu sabe que amanhã,
    talvez ainda hoje,
    esse aloprado te escapa,
    te faz refém,
    te mata.

  • Sobre sonhos que chegam em kombis brancas

    As tardes eram tão tediosas. Só se ouvia o barulho do sol ardido e de alguns pássaros corajosos a cantar naquela quentura. Até que a kombi branca virasse na esquina. Era o padeiro. Ele vinha bem devagar, dando oportunidade para todas as avós e avôs da rua fazerem seu pedido. Pão francês fresquinho, era o que dizia o autofalante. Se era mesmo, eu não sei. Não tinha naquela época nem gosto nem atenção pra isso. Era só ouvir os ecos do motor que eu saia correndo pra atazanar minha vó. Quero um sonho, vó. Me compra um sonho? Minha vózinha, que não me lembro de já ter me dito não, me dava um punhado de moeda, tirado de sua bolsinha de contas que guardo até hoje, e me pedia que trouxesse também uns pãezinhos.

    Ficava eu, então, com a cara metida entre as grades do portão, esperando a kombi chegar até a altura da casa número oito. Ela vinha devagar, como se tivesse uma tartaruga mijando nas rodas, era o que diria minha vó. E eu ia me inquietando de ansiedade e fome. O padeiro era um acontecimento na tarde da vila, que de tão estática, bem podia ser uma pintura.

    Quando a kombi chegava lá pelo meio da rua, eu já abria o portão que emperrava um pouco, e me botava na calçada. A mão segurando as moedas molhadas de suor de criança. Ficava nervosa de pensar em me meter naquele monte de adulto pra fazer meu pedido. Nunca fui muito de me impor em multidões. Gostava mais era de sentar e olhar. É curioso como tantas coisas a gente traz lá de criança.

    Quando a kombi chegava perto o bastante para ser a minha vez, eu saía correndo pra ser a primeira a chegar nas portas abertas. Pedia um sonho, se tivesse de doce leite eu preferia. Podia ser o de creme também. Ah, e me vê três pãezinhos.

    Com o sonho no colo, sentava no sofá com a minha vó. Acho que a gente via TV.


    Hoje coloquei a água do chá pra ferver e sentei na varanda com uma caneca quente entre os dedos. Acho que foi o cheiro de camomila que me fez voltar praquelas tardes brancas. Minha vó gostava de chá. Ia lembrando disso tudo enquanto olhava a rua.

    Desejei que os padeiros voltassem a vender pão de porta em porta.

    Que eles nos trouxessem sonhos em kombis brancas.

oi?

eu sou a camila. se você chegou até aqui é porque já me leu por aí. não?
talvez não.
tudo bem.
este é o meu blog.

é aqui onde eu escrevo sem editar.
entra aí, pega um copo de água, se ajeita na privada, afofa o travesseiro. e faz de conta que a casa é sua (mas finge que não me conhece.)

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